Viemos aqui pra ouvir ou pra conversar?

20/10/2007

Pessoal,

Estou em processo de mudança, e portanto tenho me dedicado menos a radioZerima nas últimas semanas. Além disso, minha filhinha Clarinha vai nascer mês que vem e estou correndo para agilizar mil coisas. Em breve estarei mais tranquilo, na casa nova, e dedicarei mais tempo a alguns dos muitos detalhes que faltam acrescentar ao blog, assim como, é claro, publicar mais programas para ouvir, afinal de contas, radioZerima é para se ouvir. Aproveito uma ocasião inoportuna recente para compartilhar meus pensamentos com vocês.

Eu sempre odiei os metidos a sabichões. Eu já estudei música, e é muito comum encontrar nos cursos de música esse tipinho de babaca que acha que só porque sabe mais teoria que você, logo, sabem mais Música que você. Muitas vezes, esses parasitas nem sequer sabem a fundo o que Música é. Para mim, essas pessoas são vazias, e suas opiniões não servem para nada, a não ser tornar o mundo mais imbecilizado, servem apenas para aumentar a população de pseudo-teóricos que não sabem sequer apertar um parafuso sem consultar seus manuais. Por mais que eu não goste da existência desse tipo de gente, eu não dou a mínima porque suas opiniões são insignificantes para mim.

A música não se resume a teoria. A música é muito maior que isso.

Teoria é apenas um aspecto, e o mais pobre deles inclusive, do estudo da música. Existe um modelo, conhecido como T.E.C.L.A., criado pelo conceituado educador Swanwick, que é muito defendido por pesquisadores em educação musical. Esse modelo defende que o estudo da música deve contemplar as seguintes áreas: Técnica, Execução, Composição, Literatura, Apreciação, e considera as atividades práticas mais importantes que as teóricas, ou seja, é mais importante executar (tocar), compor, ou apreciar (ouvir) música, do que ficar centrado na técnica (foco central do estudo da música nos últimos 3 séculos) e na literatura (que inclui história da música, crítica, e outras publicações).

O que é melhor? Saber qual o nome de cada integrante da banda? Saber qual foi a data precisa em que o seu primeiro álbum foi lançado? Ou seria melhor ouvir o som dessa banda e sentir qual é? Ou quem sabe ainda criar, mixar, combinar, músicas dessa banda com músicas de outras bandas? Ou tentar arranhar no violão aquele riff da música deles que não saiu da sua cabeça? Responder que o mais importante é saber o nome e as datas é estarmos reafirmando a jurássica tradição clássica que até hoje ainda insiste em emperrar o desenvolvimento de uma sociedade musical mais sadia, menos imbecilizada. Na época de Mozart era comum pensar que:

Música é o conjunto organizado de notas e durações.

Mas isso foi a muito, muito, muito tempo atrás. Essa definição não faz o menor sentido para a música de John Cage que é uma sequência complexa de silêncios, ou para a música com ruídos eletroacústicos de Stockhausen. A música e o pensamento musical evoluíram bastante nos últimos três séculos, e não podemos continuar concebendo a música da mesma maneira. Uma definição mais geral, muito aceita também é:

Música é o conjunto organizado de sons.

Apesar de mais ampla, essa definição ainda não contempla toda a nova música produzida na modernidade e contemporaneidade. Consideremos por exemplo a música aleatória, a qual não existe interferência humana direta em sua execução. Se música é o conjunto organizado de sons, e esses sons podem ser sons aleatórios quaisquer, então podemos dizer que tudo é musica. Pois o barulho dos carros, aviões, pessoas, e até pensamentos poderiam ser interpretados como uma grande música aleatória. Existe entretanto uma pequena sutiliza: o propósito de ouvir. A música aleatória é música porque foi concebida para ser apreciada. O barulho dos carros não é música, pois não foi concebido para ser apreciado como tal. A gravação do barulho de carros em uma instalação de arte é música, pois aquele som foi concebido para ser ouvido em conjunto com as obras de arte expostas alí. Ou seja, prefiro dizer que:

Música é o conjunto de sons organizado com o propósito de ser ouvido.

O mais importante dessa última definição, na minha opinião, é que ela considera a audição (apreciação) elemento principal na caracterização da Música, ou seja, ela traz a prática para o primeiro plano, e a teoria (organização) para o plano de fundo.

Quem pensou que criamos a radioZerima para levar informação para as pessoas está completamente errado. Quem quiser isso que compre um almanaque. O único motivo que me levou a dedicar longas horas de minhas semanas a esse projeto é fazer com que as pessoas ouçam diversas músicas diferentes, de gêneros, nacionalidades e épocas diferentes, sempre com a ênfase no groove e no que consideramos uma boa música. As informações sobre os artistas e as músicas são importantes sim para complementar a apreciação musical, de maneira que o ouvinte possa refletir sobre o gênero, época, ou outros aspectos dessas músicas, inclusive musicais, como instrumentação, técnica, estrutura ou textura. Essas informações são interessantes também para quem quiser comprar, pesquisar, ou baixar músicas nesse estilo.

Mas, a informação é secundária. A música é primária.

Por detrás dos bastidores, cada programa para ser publicado na radioZerima passa por um longo processo que pode levar ao todo mais de 8 horas, desde a preparação, transmissão, gravação, masterização, conversão em mp3 64 kbps, rotularização, publicação do áudio, pesquisa de imagens, redação do playlist e de comentários gerais, geração do código HTML para o player funcionar com as estatísticas de download, até finalmente a publicação do post no blog. A transmissão é feita ao vivo, e gravada na hora, o que tornam as coisas tecnicamente mais complicadas, pois precisamos fazer uma pequena gambiarra de retransmissão Brasil/Berlim para que a transmissão de nossos 2 programas ocorra em sequência. Os meus programas (Preto No Branco) são mixados ao vivo com equipamento de DJ, o que exige de mim um certo malabarismo para transmitir, gravar, mixar, fazer a locução, e ainda de leve, bater um papinho no chat para os ouvintes se sentirem em casa. É uma grande dedicação que fazemos pelo simples amor à música.

Mesmo criando scripts, às vezes cometemos algumas falhas. Às vezes, dá problema na gravação, e o programa tem que ser regravado. Às vezes, vacilamos na locução ou passamos uma informação errada por descuido ou simples ignorância. Às vezes, dá problema na publicação do áudio. Às vezes, dá problema na publicação do blogspot, ou nas imagens. Ou mesmo escrevemos algo ortograficamente errado, ou sem a formatação HTML adequada. Sim, esses problemas acontecem, mas acima de tudo, a música está lá. Independente de tudo, a música está lá. E isso é o que realmente importa para nós.

Continuaremos nos esforçando para publicar músicas dignas de serem apreciadas. Agora, se você é um aficionado por nomes e datas, saiba logo que esse não é o seu lugar, vá logo comprar um almanaque e decorar todos os nomes e datas que quiser. Sugiro que você siga a indicação de Toni Tornado... ou seria Gerson King Combo? Tanto faz, são apenas nomes. Sugiro que você siga a indicação do caboclo que canta e diz:

“Ouça primeiro pra depois vir dizer, porque todo meu canto sai do meu coração.”

um grande abraço,

DJ Pedrada.

2 comentários:

radioZerima disse...

Francisco,

já que vc encontra nosso site procurando no google pelas palavras "sambarock e funk", vc deveria culpar o google por isso, e não a mim. Infelizmente, não sou eu quem controla os índices de busca no google. Eu coloco APENAS as tags que TEM RELAÇÃO DIRETA com os programas. Assim, quando um programa nosso tiver alguma música samba-rock na sua programação, eu continuarei colocando a tag "samba-rock" nesse post, quer vc goste ou não.

Quanto ao funk, esse podcast tem sim tudo a ver, pois a grande maioria dos sons contidos aqui são funk, funk-soul, jazz-funk, disco-funk, e rare grooves, o que inclui músicas brasileiras antigas como o samba-rock, jovem guarda e outros.

Eu discordo plenamente de você, e acredito que não estou sozinho. Quando alguém procura no google "sambarock e funk", nosso podcast tem muito a ver com a pesquisa sim. Nosso podcast pode não agradar plenamente a todas as pessoas que estiverem realizando essa pesquisa, mas certamente agradará a maioria delas.

Agora eu vejo, que além de você estar com uma baita de inveja do programa que fazemos, está também com inveja pelo fato de nosso podcast estar tão bem posicionado nos índices de pesquisa do google. Eu só posso acreditar pela sua fúria inexplicável que se você viesse a fazer um podcast SEU, vc não teria competência de fazer um com maior qualidade, ou que tivesse uma melhor posição nas pesquisas do google.

Até hoje ninguém veio falar mal de nossos programas, e caso alguém viesse fazer alguma crítica, eu acredito que não seriam indelicados e prepotentes como você. Você poderia ter toda a razão pelas coisas que você comentou, pois passamos sim algumas informações erradas, e iremos repará-las assim que possível. Por outro lado, a partir do comento que vc passa a agir com ignorância, vc perde totalmente a razão, e suja a sua própria "imagem". Digo entre aspas pq ao contrário de mim que dou a minha cara a tapa, vc se esconde através de um pseudônimo.

Continuo a dizer. Duvido que faça um podcast melhor que esse. E se fizer, pode ter certeza que eu não irei avacalhar seu trabalho, mesmo que não seja perfeito.

Mais um detalhe. Pouco me importa se vc adicionou aos favoritos, se vc marvcou ele no delicious, se vc procura no google, ou se vc decorou o nome radioZerima e digita direto na barra de endereços. Enquanto você continuar a acessar meu podcast, aumentando significativamente o número de acessos diários dele, e consequentemente o número de downloads dos programas, eu ficarei muito contente.

Sem mais a dizer no momento,
lhe envio uma pedrada na sua têmpora esquerda.

com muito desamor,

DJ Pedrada.

Thiago Corrêa disse...

Com certeza vou me manter informado e curtir esse podcast!!!
Dá uma ouvida no meu trabalho e me diz o que acha? To tentando me virar com sambarock.
Está em www.thiagocorrea.com
GRANDE Abraço,
Thiago Corrêa